28.11.09

Lírio Do Vale

Dedicado à memória de Fred, meu amigo, único amigo na solidão de minha adolescência, Freddie Mercury, o lírio do vale.



O beijo debaixo da chuva de outono, na clandestinidade do apartamento. A estante de madeira com livros e discos lado a lado como eu e ele na cama. Olhávamos pro teto e víamos estrelas, adesivos de constelação. E uma ânsia de invadir o espaço com nossos corpos imortais. Contava-me a história de sua vida e boa parte era mentira, uma mentira efervescente entre o céu da boca e a língua. Relatava não-feitos, ideias inacabadas, confissões de derrota e cansaço. Enquanto eu comparava a cor das suas veias com as minhas, a intensidade do azeviche do cabelo com o meu, o temor à entrega dos sentimentos com o meu zelo. Os grãos de uma ampulheta dos infernos tragando-nos sem piedade. Então eu fechava a janela e anunciava o jantar. Atrás de mim dois olhos me seguiam.


Traçávamos uma linha de contenção antes da porta de entrada/saída. Era-nos proibido transpor a marcação da cena e quem o fizesse considerar-se-ia o traidor da fé, da fé no amor. No fundo, o simbolismo era exagerado. Porque quando eu dançava vestida de deusa grega, ele bebia champanha no gargalo da garrafa e jogava rosas vermelhas nos meus cabelos. Intuíamos que a fronteira entre a vida e a próxima já fora cruzada.


Durante cinco dias nos abrigamos da rua, no quarto. Um abajur-de-pé e a vitrola do século 20. Místicos, entoávamos mantras sem sentido; um olho fechado e outro, rindo. Três minutos de meditação e logo arfávamos tentando inutilmente fundirmo-nos esqueletos, músculos, carnes. Na ponta mais aguda do gozo, prendia-o com minhas pernas de anaconda para triturá-lo antes do amanhecer. E, sabendo de minha intenção canibal, ele não oferecia resistência, num desafio de caça dominando a caçadora.


No altar da igreja, permitia-me mais uma vez adorá-lo sem disfarces, como antes, nos cinco dias. E, fascinada, admirava-lhe a beleza e o abatimento ao dizer a mim e a outro: Eu vos declaro marido e mulher. Não quero que se beijem.

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Publicado originalmente para MOjO BOOKS.

26.10.09

QUEEN

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10.10.09

Corpúsculo



Era um homem pequeno e atarracado. Ao redor do abdômen uma faixa de gordura, firme. Ombros largos e caídos sobre o tronco curto. Havia debaixo de seus olhos uma sombra escura, olheiras que herdara da mãe – engenheira civil, aposentada do governo, bulímica aos 62 anos de idade. Fora uma criança gorda com olheiras. Frágil de saúde e fraco de personalidade. Desajeitado com o futebol e com as meninas. Cresceu com a fama de nerd, CDF, gênio. Matinha a fama à base de Ritalina e roteiros decorados. Um ator. Uma fraude. Estragado pelo zelo de uma mãe cujo ápice da existência fora a construção do quinto prédio mais alto de Porto Alegre. Mas, mesmo ela, mãe, olhos de mãe, via o quanto era mal estruturado a criação de seu ventre e, os alicerces, gelatinosos, ameaçavam possível desabamento. A qualquer instante. Por isso criou Alberto, o único filho, com Neston, Calcigenol e teoria psicanalítica do Moinhos de Vento.

Aos 24, ele trocou a Engenharia pela Odontologia. Sentia atração pelo sujo; abandonou a limpeza da exatidão dos ângulos retos. Antes projetava peças para máquinas e, entre as engrenagens, um corpo mutilado. Usava com tamanha frequência a cor vermelha que suas notas na faculdade tornaram-no viciado nelas. Refletiu que melhor seria desistir de perpetuar o legado materno a fracassar. E como refletir apenas sobre isso lhe causava náusea, cogitou seguir os passos do pai. No entanto o vento dos anos dissipara as cicatrizes de suas pegadas. Sem rastros, sem pistas, apenas observações sarcásticas de baixo calibre:

- Inseminação artificial, meu filho. Pai ausente não passa de mero espermatozóide.

Alberto era preguiçoso demais para uma aventura em busca do progenitor perdido. Vingou-se então do pai evitando tornar-se parecido com a mãe. Com o decorrer dos anos, descobriu-se fascinado por criaturas com nomes e sobrenomes, osso alveolar, ligamento periodontal, cemento radicular e, principalmente, fibras gengivais. Periodontista, doutor Alberto, uma placa na porta do consultório.

O paciente deitava na cadeira e arreganhava a boca. A máscara na face protegia o dentista dos olhos daqueles que tinham suas gengivas raspadas, perfuradas, corrigidas e adestradas. Luta voraz contra a placa bacteriana, o tártaro, a gengivite e os demônios. As luvas manchadas do sangue que exalavam na atmosfera úmida de agosto a fragrância pungente da fome. Às vezes perdia-se em devaneios eróticos ao simples pinçar da carne rosada acima dos dentes frontais. Tão delicada e tenra carne. Deliciosa carne. Imaginava-se enterrando a cabeça no interior de uma imensa gengiva, seu corpo roliço sendo tomado e envolvido pela maciez de um tomate polpudo, molhado, mole, viscoso. E todo aquele sangue. Nas mãos. No rosto. Sangue no algodão e na gaze. O sangue nos olhos.

Noites insones. A lua imensa sobre o crânio. Cortinas fechadas não impediam a invasão da loucura. Alberto caminhava pelo seu apartamento de 600m², nu, abatido e torturado. Tingia as paredes do quarto de escarlate, engolido por uma boca estúpida, entre teias de saliva e depois a traqueia.

Certa noite cortou o braço com uma lâmina de aço, próximo ao pulso. Da veia grossa e verde emergiu a seiva. Um sangue sem cheiro. Raivoso, arremessou o próprio punho contra o espelho. Vários homens pequenos, gordos e periodontistas riam-se histéricos. Vestiu o casaco preto que lhe disfarçava o diâmetro da barriga e saiu para as ruas do Petrópolis. A chuva caía como flocos de neve. A calçada tremia debaixo de seus pés. Ele lutava contra o vulcão adormecido entre as costelas enquanto as pálpebras eram irrigadas pelas lágrimas. Trêmulo de medo - medo de desejar - não percebeu os primeiros tremores do terremoto porque o seu mundo era ele e sua vontade de matar e beber o sangue das gengivas.


Este texto foi escrito de forma lúdica. Na verdade, eu não tinha nada pra fazer num desses domingos bobos. O personagem é ficcional, se algum periodontista ler...rsrs... será engraçado...rsrsrs

3.10.09

Qual a melhor idade do homem?


A) Duas décadas > Tom Kaulitz... Vitalidade, frescor, superficialidade...fôlego... muito fôlego... fôlego....experiência de vinte anos de vida...já é alguma coisa...rs




B) Quatro décadas > Simon Baker... Vitalidade, frescor, superficialidade...fôlego...maturidade... experiência...já sabe o que quer da vida...e o que não quer....



C) Cinco décadas > Bruce Willis... superficialidade...maturidade... experiência...já sabe o que quer da vida...e o que não quer.... já tem quase tudo mas não consegue usar sempre que precisa...


D) Seis décadas > Richard Gere... superficialidade...maturidade... experiência...já sabe o que quer da vida...e o que não quer.... já tem quase tudo mas não consegue usar sempre que precisa...conhece os melhores pontos (da cidade)...




E) Sete décadas > Alain Delon... superficialidade...maturidade... experiência...já sabe o que quer da vida...e o que não quer.... já tem quase tudo mas não consegue usar sempre que precisa...conhece os melhores pontos (da cidade)...vive da fama...


A melhor idade, para mim, é esta:

Não é de se apaixonar? rsr

Quem é que não faz todas as vontades desse carinha aí, hein?!