Entrevista de Donaldo Schüler
Será que todo mundo ama, de uma forma ou outra?Vamos ver. Existem dois conceitos de amor: o de Eros, que é desejo. E, como tal, ele passou para a psicanálise. Quer dizer que as pessoas movidas de desejo é que procuram o objeto do desejo. Existe uma busca mútua do que se deseja. Pode ser tanto ideias, pensamentos, como as próprias pessoas. Existe um outro conceito completamente diferente, que é o conceito bíblico e que se difundiu na Idade Média. Nele o amor é dádiva. Esse amor dádiva é definido no Novo Testamento, especificamente pelo apóstolo Paulo, que disse: “O prazer de dar é maior que o prazer de receber”. Este é o amor cristão, é a dádiva sem recompensa nenhuma.
Mas todos amam?O Ocidente é a confluência desses dois conceitos. Na medida em que todos desejamos, nós amamos. Quer dizer que você pode amar uma corrida de cavalos, uma casa, pessoas, tudo o que você deseja entra na esfera erótica do desejo. Na medida em que estamos interessados pelos outros, e damos sem pensar em recompensa, somos movidos por este conceito bíblico, desenvolvido na Idade Média também como dádiva. Quer dizer que se a pessoa diz que ama, é um termo ambíguo. Em declarações de amor que dizem “Eu Te Amo”, o que significa isso? Eu te desejo? Eu quero te proteger? Quero fazer alguma coisa por ti mesmo que tu não me retornes nada? Em uma declaração de amor me parece que este conceito não entra em consideração. Se uma pessoa declara amor a alguém, espera que ela retribua o mesmo sentimento que a gente oferece para ela.
É missão difícil o que o senhor chama de reerotização?No momento em que a gente toma consciência da falta de sentido da vida, é neste momento que devemos nos preocupar em buscar um sentido da vida. Assim, O Banquete é muito importante para refletir sobre isso. É uma decisão nossa. Nossa infelicidade é criada não por situações exteriores, mas pela nossa própria ligação com a realidade. Se nós damos sentidos às coisas, as coisas têm sentido. Se nós não damos valor à vida e às coisas e às pessoas, elas não têm valor. Depende de nós.
É possível ser feliz sozinho? Pensando helenicamente, Aristóteles disse que o homem é um ser político. Isso significa que nós vivemos dentro da pólis, da cidade. E a cidade é pessoa. A política aparece no momento que eu vivo com outra pessoa. Desde o nascimento, nós nos relacionamos pelo menos com a mãe e depois com o pai, e com os irmãos, com a família, com os amigos da família e com o resto da sociedade. A solidão realmente não existe, nós estamos acompanhados desde o ventre materno.
Fonte:
clicrbsok